Por Melina Brum Cezar
Veteranas em quadra

Quem nunca ouviu falar das famosas e habilidosas jogadas de tenistas como a argentina Gabriela Sabatini, a russa Maria Sharapova ou ainda das sérvias Jelena Jankovic, atual número um do mundo, e Ana Ivanovic. Para quem não quer ir tão longe, o próprio Brasil já viveu seu anos de glória com o esporte. A tenista Maria Esther Bueno conquistou nada menos que 589 títulos e foi número um do mundo em 1959, 60, 64 e 66.
Bem, mas atualmente o Brasil vive um período em que o tênis feminino é pouco incentivado e praticado. De acordo com a Confederação Brasileira de Tênis, a melhor tenista no País, Vivian Segnini, ocupa a posição de número 345 no ranking da WTA, associação feminina da modalidade. Enquanto isso, poucas crianças e jovens se interessam pela modalidade.
Elas nunca almejaram chegar tão longe com o tênis, no entanto, as amigas Maria Alix Dionello e Ivone Farah Prehn fazem questão de propagar os benefícios que o esporte proporciona e incentivar outras pessoas, especialmente mulheres, a praticarem a atividade. Cheias de disposição com idades de 61 e 73 anos, respectivamente, elas são exemplo de boa forma e de como envelhecer de maneira saudável e prazerosa.

 



 


Amigas e companheiras nas quadras

 



 


Maria Alix e Ivone se conheceram nas quadras de tênis e hoje, além da parceria, formam também uma bonita e duradoura amizade. As duas praticam o esporte, no mínimo, duas vezes por semana durante duas horas no Country Club Cidade do Rio Grande. Além delas, outras sete amigas também jogam tênis: Liana Spotorno, Sara Hartmann, Maria Isabel Llopart, Andréa Antunes, Marlene Vaz Pomar, Jussara Sahagoff e Roberta Pinho Ferreira. Mas o grupo já foi maior, segundo Maria, muitas precisaram parar de jogar. E embora tenham se tornado uma irmandade, a disputa é levada a sério e todas entram em quadra para ganhar.
Os jogos costumam ficar pré-agendados, nas segundas e sextas-feiras, e todas ficam sabendo do horário. Caso faltem mulheres para completar as duplas, as tenistas recorrem ao grupo de tênis masculino. Antes de começar as disputas, elas realizam o alongamento e é nesse momento que costumam colocar em dia os acontecimentos da semana. “Geralmente jogamos em duplas. É mais adequado para nossa faixa etária e até certo ponto diminui o risco de lesões. Mesmo assim, ao longo do tempo, sempre há alguém que precisa parar para se recuperar”, explica Maria Alix. 
Há cerca de dois anos, ela e Ivone pararam de disputar torneios, por diferentes motivos pessoais. Mas admitem que sentem falta daquela adrenalina, do desafio e da integração com tenistas de outras cidades. Elas contam que, quando o grupo de tenistas em Rio Grande era maior, costumavam organizar torneios locais, quando convidavam até jogadoras de fora da cidade. “Eram eventos muito bons. Conseguíamos patrocinadores que cobriam as despesas dos troféus e da festa de encerramento com entrega de prêmios. Também viajávamos bastante”, diz Maria Alix. As duas, com duplas diferentes, participaram de competições, na categoria Damas Adulto em cidades como Pelotas, Santa Maria, Santa Cruz, Porto Alegre, Bagé, Livramento, Dom Pedrito e até em Punta Del Este , no Uruguai em 1993. Nesses inúmeros torneios várias vezes pelo menos uma dupla do grupo trazia troféus para Rio Grande. “Eu e Maria Isabel mesmo conquistamos o torneio de Punta Del Este, em 1993. Não sei precisar quantos troféus o grupo ganhou, mas foram mais de trinta conquistados por diferentes duplas”, afirma.
Para elas, além de um esporte saudável, é também uma atividade que agrega e proporciona muitos amigos. “Se a gente estiver em um hotel, durante uma viagem, que tenha quadra de tênis, é só descer para o café com a raquete que logo a parceria se identifica e já marca um joguinho, aí nascem as novas amizades”, dizem.

 



 


Paixão pelas quadras
A bioquímica e professora universitária aposentada Maria Alix conta que joga tênis há aproximadamente 25 anos. No entanto, a paixão pelo esporte nasceu quando ainda era adolescente. “Sempre gostei do tênis e alguns de meus familiares praticavam. Então comecei a jogar com 14 anos, no Yacht Club Rio Grande na época, mas parei por um tempo”.
Ela conta que jogar tênis se tornou uma rotina e admite que não pensa em parar tão cedo. Maria diz que sente falta dos torneios. Os jogos, segundo ela, sempre vinham acompanhados de muita adrenalina e emoção. Principalmente naqueles em que se criou uma certa rivalidade entre competidores e cidades. Ela admite que sua grande vitória no esporte foi conquistar, junto com sua companheira de dupla, o torneio em Punta Del Este , o qual disputou com outras mulheres brasileiras, uruguaias e argentinas. “Eu pensava, puxa vida estou no exterior e nós ganhamos. Era incrível. Agora eu acho graça”, conta entusiasmada.
Casada há 36 anos e com dois filhos, Maria Alix afirma que em sua casa todos gostam do esporte. Além dela, o marido Carlos Alberto Dionello e o filho Alexandre também jogam tênis semanalmente. “Colocamos nossos filhos, Alexandre e Carla, ainda pequenos para fazer as aulas. Tênis é bastante técnico e precisa de um professor. Eles sempre gostaram e praticavam com prazer. Nos torneios que eu participava, várias vezes eles viajavam comigo”. O gosto pelo esporte faz com que Maria acompanhe jogos e competições internacionais. Seus ídolos são o brasileiro Gustavo Kuerten e a alemã Steffi Graf, considerada uma das melhores tenistas da história.
Em boa forma, a professora e aposentada garante que o esporte, além de ser um lazer, também auxilia a tratar uma doença reumática a qual sofre há algum tempo. “Gosto muito do tênis e das atividades físicas em geral. Por isso, faço também caminhada e Pilates”, conta.

 



 


Uma vida dedicada aos esportes

 



 


A decidida Ivone descobriu a vocação para a Educação Física quando tinha apenas nove anos. Em 1954, ela se formou na Escola Superior de Educação Física (Esef), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em Porto Alegre. Na época, chegou a praticar voleibol, mas foi com o basquete que pôde levar o nome do Rio Grande do Sul mais além. A senhora, de 73 anos, disputou o primeiro campeonato em nível nacional de basquete feminino, em 1952, quando fazia parte do time do Sport Clube Internacional de Porto Alegre. “Naquele ano, representamos o Rio Grande do Sul no campeonato e eu fui a campeã de lances livres”, conta. Dali em diante, foram mais três campeonatos.
Há 52 anos, Ivone, que é natural de Santa Cruz do Sul, veio morar com o marido em Rio Grande , e aqui na cidade deu aulas na Escola Estadual Bibiano de Almeida. Logo depois, foi instrutora de basquete no Colégio Estadual Lemos Júnior e levou a escola ao título de Campeã Estadual Estudantil, na década de 70. No Município, ela atuou também no Colégio Polivalente onde levou uma equipe de estudantes da escola a conquistar o terceiro lugar em um campeonato estadual, ainda nos anos 70.
Mas o que o basquete tem a ver com o tênis? Bem, nada. No entanto, uma esportista gosta mesmo é de novos desafios. Depois do basquete, Ivone começou a praticar o tênis e logo se identificou. “Me entusiasmei com o esporte e comecei a jogar em vários clubes aqui em Rio Grande. Foi aí que conheci minhas amigas”, conta. Assim como Maria Alix, Ivone também participou de dezenas de competições e trouxe para casa inúmeras premiações. “Guardo com carinho cada um dos troféus que conquistei, tanto nos jogos de duplas quanto individuais”. Entre as vitórias ela se lembra de um torneio que aconteceu em Santa Maria (RS), em 1991, quando sua dupla era Lorena Souza. Ivone tinha seus cabelos brancos e a maioria das competidoras achava que ela não chegaria às chamadas “bolas curtas”. “Eu consegui chegar em todas e vencemos o torneio”, comenta empolgada.
Já uma das grandes alegrias que teve com o esporte foi poder jogar pela primeira vez em uma quadra coberta, durante uma competição que aconteceu em Bagé (RS). Ela conta que pôde sentir que sem os fatores externos, como vento, o jogo ficava melhor e proporcionava mais segurança. Hoje, Rio Grande conta com três quadras, uma no Country Club e duas na AABB, e isso permite a prática do esporte mesmo com mau tempo.
Além das vitórias e emoções, Ivone relembra também fatos engraçados que marcaram sua trajetória no tênis. “Uma vez, eu e minha dupla, na época Eline Marinez, que hoje já é falecida, fomos disputar um torneio na Sociedade Amigos do Cassino. Mas jogamos muito mal. Quem nos assistiu deve ter pensado que éramos principiantes. No entanto, naquele dia, o vento estava intenso e não conseguíamos acertar a raquete na bola. Ficamos muito envergonhadas”, diverte-se.
Ao contrário de Maria Alix, na família de Ivone só ela gosta de praticar tênis. Casada há 52 anos com Sellby Prehn, teve três filhos, mas um deles, Tânia, faleceu. “Me parte o coração dizer, mas Tânia, quando se empolgava com a prática do esporte, nos deixou”, fala com pesar. Mesmo assim, tanto o marido quanto os filhos, Sérgio e Cláudio, a apoiam e incentivam aos jogos.
Embora adore jogar tênis, Ivone conta que não costuma acompanhar os campeonatos nacionais e internacionais, mas garante que seus ídolos no esporte são o brasileiro Gustavo Kuerten e o suíço Roger Federer, que está entre os primeiros no ranking mundial. Além do esporte, Ivone hoje se dedica também à culinária e à jardinagem.

 



 


Benefícios do tênis
Entre os diversos benefícios físicos e mentais que os esportes em geral proporcionam, Maria Alix e Ivone destacam o tênis como um importante aliado da saúde. O exercício é aeróbico e estimula a função respiratória e o sistema cardiovascular, aumentando a capacidade de resistência e promovendo também o aumento da força muscular nos braços e pernas. Além dos benefícios à saúde, elas consideram toda a atividade esportiva também educativa, pois proporciona disciplina.
As duas lamentam que poucas mulheres praticam o esporte no Município e fazem um convite às rio-grandinas. “É importante que as famílias incentivem e proporcionem às suas filhas a praticar o esporte”, dizem.
E já que o assunto é incentivo, vale ressaltar que o presidente da Confederação Brasileira de Tênis, Jorge Lacerda da Rosa, prometeu que haverá maior investimento na modalidade feminina a partir de 2009. A intenção, segundo ele, é de que elas tenham a oportunidade de disputar um maior número de torneios no Brasil a fim de proporcionar mais chances das tenistas pontuarem na WTA, a Associação das Tenistas Profissionais.

 



 


 


 


 


 



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