Vale – QUASE – tudo!

Há quem diga que o vale-tudo nada mais é do que uma grande briga de rua transportada para o ringue, em que cada lutador utiliza vários tipos de técnicas de defesa pessoal. Outros, ainda mais preconceituosos, chegam a comparar a prática com um divertimento livre e de pura agressividade e violência.
É bem verdade que esses elementos são necessários na hora de uma disputa por um título. Porém, o vale-tudo, além de ser considerado há muito tempo um esporte, também possui toda uma estrutura técnica e uma cultura. Com o passar dos anos, a modalidade vem rompendo barreiras, se modernizando, ganhando espaço e fama no cenário e na mídia mundial. Prova disso são os inúmeros campeonatos e a participação de diversos tipos de públicos existentes.
Com grande destaque neste cenário, o Brasil é um dos países responsáveis pela prática desse esporte.

As regras
Uma das primeiras definições sobre as regras do esporte foi feito por Lincoln Gomide, o apresentador do combate que avisava pelo microfone à platéia: "Aqui vale quase tudo, só não vale dedo no olho, mordidas e cabeçada na nuca. Ah, também não vale puxão de cabelo, que é coisa de mulher.".
As regras, bem como o tempo de luta e a maneira pela qual o juiz comanda o combate, variam um pouco conforme o campeonato, mas os grandes torneios têm divisão por pesos, assaltos e decisão dos juízes, geralmente com três rounds de cinco minutos cada.
Não é permitido ataques, de qualquer tipo, aos órgãos genitais dos lutadores ou colocar o dedo em orifícios do oponente, e isso inclui ferimentos e cortes causados no decorrer da luta. Atirar o lutador para fora do ringue também é passível de desclassificação. Outra medida com a qual os organizadores se preocupam é com ataques à nuca dos lutadores ou golpes enquanto o oponente já está nocauteado ou indefeso. Tais regras foram extraídas de outras artes marciais.
Nos campeonatos, os duelos só terminam quando há o nocaute, a desistência e a desclassificação. Outras maneiras para se vencer são: decisão de pontos, quando o treinador joga a toalha, e o árbitro ou o médico param a luta.

Rio Grande entra na briga
Depois de muitos anos sem sediar nenhuma competição, Rio Grande voltou a ser cenário para a modalidade com o 1º Pitbull Fight. Idealizado pelo atleta e promotor de eventos Rodrigo Duarte, e com o apoio da Prefeitura Municipal, através da Secretaria Municipal de Turismo, Esporte e Lazer (SMTEL), uma das propostas do evento - realizado na noite de sábado, 26, no Ginásio Farydo Salomão - foi de colocar em combate atletas do Rio Grande contra os da cidade de Pelotas. Das cinco batalhas, quatro envolveram os atletas das duas cidades. O resultado foi um empate entre as equipes.
Sucesso de participação, as centenas de pessoas que comparecem no ginásio vibravam com cada golpe lançado pelos atletas. A maior parte do público era composta por jovens, muitos pertencentes às academias. Mas também notava-se a presença de outras gerações espalhadas pelo local, como crianças e até mesmo idosos. Alguns concentrados, como se pudessem sentir a adrenalina dos competidores, outros com a famosa curiosidade estampada no rosto. Mas todos atraídos por cada movimento manifestado no ringue.
A noite consagrou, com o título de campeões, nomes como Sérgio Terra, Lúcio Aguiar e Gabriel PitBull.
Ao ser perguntado sobre uma possível continuação do apoio nesse esporte, Paulo Medina, supervisor da SMTEL, comentou que todas as partes envolvidas já estão em fase de discussão para se decidir uma nova data e que possivelmente a segunda edição aconteça já no início do próximo semestre. Outros planos como integrar este tipo de competição como uma das atrações de veraneio, no balneário Cassino, também já estão sendo cogitados.

"A observação é fundamental para o atleta"

Há seis anos praticando full contact (mistura de boxe com karatê, em que só é permitido chute acima da cintura), Sérgio Terra, 25 anos, disputou pela primeira vez um vale-tudo, na categoria 82kg (peso meio-pesado). E não fez feio. Representando a Academia Césio Dias, onde desenvolve seus treinamentos, Sérgio deixou por diversas vezes o pelotense Eduardo, da equipe Mota, sem rumo e percepção. No final do terceiro round, e aos gritos da torcida, os juízes confirmariam a vitória do primeiro campeão rio-grandino daquela noite.
- Geração Agora: Tanto você quanto seu adversário tiveram um bom preparo físico e finalizaram os três rounds. Ficou satisfeito com o resultado? Qual foi o melhor momento da disputa?
- Sérgio: Fiquei bastante satisfeito. É claro que gostaria que o resultado tivesse sido melhor, pois sei que poderia ter feito mais. Por outro lado, eu treinei durante três semanas doente, mal e com dor. E mesmo assim consegui ter um bom preparo, só que fui perdendo-o ao longo dos rounds. Sem dúvida, o melhor momento foi o primeiro round. O primeiro porque eu tive mais gás, me senti com mais energia.
- Geração: Como a decisão ficou nas mãos dos juízes, em algum momento você teve medo de perder a batalha? Tem como sentir medo quando se está no ringue?
Sérgio: Apesar de estar ciente de que os juízes me descontaram alguns pontos [por um golpe fora das regras], sempre fiquei muito confiante. Medo acredito que não. Pelo contrário, quando estou no ringue tenho uma sensação boa de adrenalina e de muita coragem. Os únicos pensamentos são: não perder a resistência, estudar o adversário e alcançar a vitória.
Só tive medo mesmo quando fui convidado para disputar, ou seja, no início. E isso aconteceu porque muitas pessoas não acreditaram que poderia vencer. Meu adversário já tinha três lutas na modalidade, e eu nenhuma. Mas no decorrer dos treinamentos fui ganhando cada vez mais confiança e acreditando na vitória.
- Geração: Qual a melhor estratégia para derrotar o adversário?
- Sérgio: A observação. É fundamental para o atleta, antes e durante o confronto, observar o seu adversário e ver qual é o tempo dos golpes dele, para poder preparar e entrar com o seu ataque antes. É necessário também conhecer os seus próprios limites, o seu tempo, as habilidades e potencialidades do adversário. Ter a noção e o domínio do corpo.
- Geração: Você já sofreu algum preconceito por praticar o esporte?
- Sérgio: Já e por pessoas que acham que o lutador tem cabeça de vento e é burro. Isso acontece porque alguns eventos são mal organizados, ou porque alguns atletas se drogam para entrar no ringue e acabam fazendo verdadeiros fiascos. Mas se estas pessoas tivessem o conhecimento e soubessem qual é o verdadeiro significado das artes marciais, jamais ficariam falando certas bobagens.
- Geração: Tem planos para o futuro?
- Sérgio: Quero seguir acreditando em mim, e se tudo continuar dando certo, conciliar a minha vida com o esporte. Quem sabe no futuro até mesmo dar aulas. Gosto sempre de agradecer a Deus por todas as oportunidades e agradecer também ao meu mestre [o treinador Sérgio Dias], que largou tudo para me atender.

"O que difere um atleta é seu condicionamento"

Lúcio Aguiar, categoria 100kg (peso-pesado) tem 28 anos e pratica as artes marciais há mais de três. Já treinou em academias no Rio de Janeiro e na cidade de Juiz de Fora, em Minas Gerais. É representante e professor da modalidade da academia rio-grandina Parabellum. O atleta, que está sempre em busca de novos planos, pensa sempre no futuro. Entre seus planos, está aperfeiçoar suas lutas e técnicas em outros estados e criar novas competições. Na disputa de sábado, 26, derrotou seu adversário, o também rio-grandino Eduardo Perez da equipe Muay Thai Impacto. No próximo dia 10, Lúcio enfrenta mais um adversário no evento que será sediado na cidade de Pelotas.



- Geração Agora: Quais os elementos importantes para quem quer ganhar uma luta?


- Lúcio: É essencial para o atleta estar com um bom condicionamento físico. Não adianta só ter vontade e não ter preparo, porque terminou o gás, terminou a luta. Já vi muitos atletas bons, com fama e de nível internacional, entrar no ringue e no meio da luta perder o fôlego e a força e acabar dando tapa na cara do adversário. O que decide e difere o atleta numa luta é o seu condicionamento. Pois hoje, tudo o que tu sabe o outro também sabe.


- Geração: Na hora da luta, a raiva é uma aliada?


- Lúcio: Eu não consigo ter raiva, só se eu estiver numa ruim mesmo, apanhando feio, porque aí entra também a questão do instinto da pessoa. Mas costumo sempre levar tudo na paz. Tanto é que antes e depois da luta eu abraço, se faço alguma coisa errada, sem querer, eu peço desculpas.


- Geração: Você considera o vale-tudo um esporte perigoso?
- Lúcio: Eu acho o boxe muito mais perigoso do que o vale-tudo. No boxe, a pancada é direto na cabeça. Muitas vezes na nuca. Então, o risco é muito maior.


- Geração: Depois da luta, quanto tempo leva para a recuperação?


- Lúcio: Depende das pancadas que se leva durante o confronto. Às vezes, bem mais de uma semana.


- Geração: E mesmo assim vale a pena lutar?


- Lúcio: Vale muito a pena. É um esporte que para praticar tem que gostar, pois exige muitos sacrifícios, dores. Mas para quem se dedica, vale a pena.


- Geração: O que pode acontecer de mais imperdoável durante um confronto?


- Lúcio: O erro dos árbitros. Como exemplo, lutei uma vez no Rio e foi visível para todos que estavam presentes que eu tinha ganho a luta. Meu adversário estava muito mal fisicamente. E mesmo assim na contagem dos pontos deram a vitória para ele. Ver aquele outro braço sendo estendido, ver o público reclamando da decisão, foi muito frustrante. A derrota faz parte, com ela se cresce, mas a injustiça é a pior coisa que existe. 

"Tem que adquirir novas técnicas"


Com 26 anos, Gabriel ‘PitBull’, da equipe Duarte Cascagrossa, pratica o esporte há mais de um ano. Mesmo com o pouco tempo de treinamento, sua luta foi uma das mais rápidas e brilhantes da noite de sábado. Foi preciso apenas um round para derrotar seu adversário, o pelotense Rodrigo, da equipe Pro Fight. O atleta, que disputa a categoria 75kg (peso meio-médio ligeiro) já tem convites para disputar outras competições em Pelotas e Santa Catarina.


- Geração Agora: Em uma luta tão rápida, deu tempo de pensar em alguma coisa?


 - Gabriel: Coloquei todo o meu coração, toda a minha vontade naquela luta. Pensava: 'não vou e não posso perder para esse cara'. Mesmo sendo em um round, eu gostaria que tivesse sido mais.


- Geração: Esta foi a sua segunda luta. A outra você perdeu. Como lidar com o próprio ego após uma derrota?


- Gabriel: É sempre muito frustrante. Mas desde que aconteceu, coloquei na cabeça que eu não ia deixar isso se repetir e que iria me dedicar muito mais aos treinos. Outro ponto que contou um pouco é que meu adversário já tinha duas lutas a mais do que eu, que estava estreando. Então, fiquei bastante nervoso.


- Geração: O uso da tecnologia possibilita o estudo do adversário?


- Gabriel: Com certeza, e é muito bom poder estudar o adversário através dela. Dá para ter uma noção sobre as suas estratégias, especialidades. Por exemplo, se teu adversário pratica jiu-jitsu, não se pode pensar em levá-lo para o chão. Então ela te permite avaliar como é o jogo dele. Ao mesmo tempo que permite que teu adversário também te estude. Por esta razão, não se pode treinar de uma mesma maneira, tem que estar sempre adquirindo novas técnicas.


- Geração: Quais são seus planos dentro da modalidade?


- Gabriel: É sempre crescer, treinar. Continuar lutando entre Rio Grande e Pelotas e quando estiver bem preparado e com boas condições disputar campeonatos por todo o País, claro, com algum patrocínio, alguém que acredite no meu trabalho.


- Geração: E por que o apelido PitBull?


- Gabriel: O apelido sempre me acompanhou. Além de gostar muito do animal, sempre fui baixinho e envolvido com a musculação.

Bruno Kairalla



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